Uma estudante de psicologia jantou num restaurante em Berlim, em 1927, e reparou em algo que parecia contradição. O garçom não escrevia nada, e ainda assim acertava tudo. A explicação virou um dos achados mais citados da psicologia.
Bluma Zeigarnik era estudante de psicologia na Universidade de Berlim quando foi jantar com colegas de classe e professores, em 1927. O garçom do restaurante anotou o pedido de cada pessoa da mesa de cabeça, sem escrever uma palavra sequer. Zeigarnik imaginou que aquilo ia terminar em erro, prato trocado, pedido esquecido. Não terminou. O garçom serviu a todos exatamente o que cada um tinha pedido, sem anotação nenhuma pra consultar.
Intrigada com a proeza de memória, Zeigarnik, que se tornaria uma das pesquisadoras-chave da psicologia da Gestalt, levou a observação pro laboratório. Montou experimentos em que participantes precisavam realizar de 18 a 21 tarefas sucessivas, quebra-cabeça, problema aritmético, tarefa manual. Alguns participantes foram interrompidos antes de conseguir terminar. O resultado, publicado ainda em 1927, é o que hoje carrega o nome dela: uma ação incompleta é lembrada quase duas vezes mais, precisamente 1,9 vezes mais, do que uma ação já completada.
A tensão que não descarrega é o que fica na memória
A explicação que Zeigarnik propôs pra esse resultado é a peça central do efeito. Quando uma tarefa é interrompida antes do fim, a pessoa desenvolve um nível de tensão psicológica que não recebe a descarga que receberia ao completar aquela tarefa. Essa tensão sem resolução é o que mantém a informação incompleta mais presente, mais acessível, mais difícil de esquecer. E é essa mesma lógica que explica a cena que originou a pesquisa: o garçom lembrava com precisão dos pedidos ainda pendentes de servir, mas esquecia rápido os que já tinham sido entregues. Assim que a tarefa se completa, o cérebro solta aquela informação, porque a tensão que a mantinha ativa já foi descarregada.
O cliffhanger é a mesma tarefa incompleta, só que emprestada
Transposto pra criação de conteúdo, o mecanismo que Zeigarnik documentou explica por que um gancho aberto funciona tão bem quanto funciona. Um vídeo que termina em cliffhanger, uma legenda que promete “parte 2 nos comentários”, ou uma informação retida de propósito até o segundo final do vídeo, todos ativam o mesmo processo psicológico: eles transformam o consumo daquele conteúdo numa tarefa incompleta na cabeça de quem assiste. A pessoa não esquece porque a tensão gerada pela falta de resolução ainda está ativa, exatamente como a tensão do participante interrompido no experimento de Zeigarnik.
Imagine, de forma ilustrativa, um vídeo que expõe um problema comum de determinado nicho, cria expectativa em torno da solução, e corta bem no momento em que a resposta ia aparecer, empurrando o espectador pro próximo vídeo ou pro comentário fixado. O cérebro de quem assistiu não trata aquilo como conteúdo abandonado. Trata como tarefa pendente, do mesmo jeito que o garçom de Zeigarnik tratava pedido ainda não servido, e é exatamente essa pendência que faz a pessoa voltar, procurar a continuação, fechar o ciclo que ficou em aberto.
O efeito que uma estudante notou observando um garçom de memória impressionante virou, quase um século depois, parte da engenharia por trás de todo conteúdo que termina sem terminar. A tensão que Zeigarnik documentou em laboratório é a mesma que qualquer cliffhanger bem construído deixa entalada, de propósito, na cabeça de quem assiste.
Referências:
Zeigarnik, B. (1927). Das Behalten erledigter und unerledigter Handlungen. Psychologische Forschung.
Efeito Zeigarnik e os garçons que se lembram de tudo, Psicoativo
Efeito Zeigarnik explica por que garçons não esquecem o pedido dos clientes, Xataka Brasil
O Efeito Zeigarnik: o episódio termina, mas a história não, WeMystic Brasil
Os efeitos de Zeigarnik e Ovsyankina, UX-Republic
Colunista: Jéssica Horrana.