Em 2008, um livro entrou em quatro listas de best-seller ao mesmo tempo argumentando algo que soava simples e era, na prática, uma provocação: qualquer pessoa pode liderar, ninguém mais precisa pedir licença pra isso.
Tribes: We Need You to Lead Us, de Seth Godin, publicado naquele ano, virou best-seller nacional nas listas da Amazon, New York Times, BusinessWeek e Wall Street Journal. No Brasil, chegou como Tribos: Nós Precisamos que Você nos Lidere. A definição que Godin dá pra tribo é curta o suficiente pra caber num post e densa o suficiente pra sustentar um livro inteiro: um grupo de pessoas conectadas umas às outras, conectadas a um líder, e conectadas a uma ideia. Só é preciso duas coisas pra transformar um amontoado de gente em tribo, um interesse compartilhado e uma forma de se comunicar.
A tese central do livro não é sobre marketing, é sobre liderança na era da conexão. Antes da internet, reunir um grupo em torno de uma ideia exigia permissão, orçamento, posição hierárquica. Você precisava ser dono de emissora, editor de jornal, ou ocupar um cargo que autorizasse sua voz a alcançar muita gente. Godin argumenta que essa barreira caiu. O que sobrou no lugar dela não é técnica nem dinheiro, é visão, coragem pra desafiar o status quo, e generosidade suficiente pra conectar pessoas que já compartilham a mesma paixão, mesmo que ainda não soubessem que tinham uma tribo esperando por elas.
Movimento derrota organização
O conceito que resume o livro numa frase é este: movimentos derrotam organizações. Empresas que entenderam isso pararam de vender produto e passaram a construir movimento. O próprio material cita três exemplos que eram tribos antes de serem empresas no sentido convencional, Apple, Harley-Davidson e Wikipedia. Nenhuma das três cresceu simplesmente entregando um produto pra um cliente passivo. Cresceu porque quem comprou passou a se identificar com uma ideia maior que o produto em si, e essa identificação conectou compradores entre si, não só com a marca.
Godin descreve três passos pra alguém sair de espectador e virar líder de tribo. O desejo de mudar alguma coisa. A capacidade de conectar um grupo. A disposição de efetivamente liderar, não só observar. Os três, juntos, são o que separa quem tem ideia de quem tem tribo.
Seguidor recebe conteúdo. Tribo se conecta entre si
Aqui está a distinção que mais importa pra quem cria conteúdo hoje, e que a maioria confunde sem perceber. Ter seguidor não é ter tribo. Seguidor é audiência passiva, alguém que recebe o que você posta e segue rolando o feed. Tribo é outra coisa, é quando as pessoas que acompanham você começam a se conectar entre si, não só com você, em torno de uma ideia que compartilham.
Aplicar o primeiro passo de Godin, o desejo de mudar algo, significa que quem cria conteúdo precisa ter uma posição real, não um resumo genérico de dicas de nicho. No universo de finanças pessoais, por exemplo, isso é a diferença entre postar “5 dicas pra economizar” e assumir publicamente que o sistema de consumo por parcelamento infinito prejudica quem já ganha pouco, e convocar a audiência a pensar diferente sobre isso. O segundo passo, conectar o grupo, é ativo, não passivo: criar espaço onde a audiência fale entre si, não só comente pro criador, seja num grupo de WhatsApp, numa comunidade fechada, ou num formato de conteúdo que estimule resposta de quem assiste pra quem assiste, não só pro autor. O terceiro passo, liderar de fato, exige o que mais gente evita, tomar posição visível o suficiente pra alguém discordar dela. Uma comunidade de emagrecimento saudável, por exemplo, só vira tribo quando o criador assume uma visão clara sobre o que funciona e o que é mito, mesmo sabendo que parte da audiência vai discordar, porque é exatamente essa clareza de posição que dá às pessoas algo em comum pra se conectar.
O que Godin descreveu em 2008 continua valendo porque a mecânica nunca foi sobre plataforma. Era sobre liderança, sobre a coragem de assumir uma ideia em voz alta e generosidade suficiente pra deixar que outras pessoas se encontrem através dela. Quem cria conteúdo hoje tem a mesma ferramenta que faltava antes da internet existir. A pergunta que Godin deixa não é se você tem seguidores o bastante. É se você está disposta a liderar a tribo que já está esperando alguém dizer a coisa certa em voz alta.
Referências:
Godin, Seth. Tribes: We Need You to Lead Us. Portfolio, 2008.
Tribos: nós precisamos que vocês nos liderem, Amazon Brasil
Tribes: We Need You to Lead Us, Penguin Random House
Tribes: We Need You to Lead Us, Seth Godin Book Summary, Scalabl
Colunista: Jéssica Horrana.